A legitimação da vida

Basta você não publicar nada nas redes sociais por alguns dias, demorar a responder as mensagens no WhatsApp e pronto: “O que aconteceu?”, indagam os seus amigos mais próximos. Junto a este raciocínio vem o de que algo está errado, ou que o indivíduo está com algum problema.

Qualquer pessoa com um círculo mínimo de amizade e presente nas redes sociais é bombardeada diariamente com postagens das mais diversas. A ideia de uma vida perfeita e da felicidade plena é retratada em um bom dia ensolarado que no fim do dia dará lugar a imagem de um sorriso aberto que emana alegria, nunca esquecendo as refeições das mais diversas e encontros casuais e programados para se passar a mensagem de que se é sociável.

Todos nós fazemos inúmeras atividades no nosso dia a dia, porém, a publicação nas redes sociais – desde acontecimentos banais até o nascimento de um filho – é o que legitima a nossa existência. Pelo menos aos olhos de alguns. Para estes, é crime não estar presente no Facebook. Não registrar momentos dos mais variados no Instagram também é pecado. No Snapchat é até um erro perdoável, dependendo da sua idade, é claro.

A percepção de que ‘quem não publica, não vive’ tende a aumentar. Cada dia temos uma ferramenta nova para que o nosso dia seja contemplado aos olhos dos outros. Em contrapartida, já há os que utilizam menos as redes sociais no dia a dia e em seus momentos de lazer.

Tal comportamento, por si só, faz com que a experiência real seja distinta, afinal de contas, passar a noite bebendo no bar com o celular na mão é bem diferente do que apenas o utilizar para chamar um táxi na hora de ir embora. O que me permite ponderar: “Quem não posta vive mais?”

Embora seja sedutor compartilhar o que vivemos, a vida não precisa dessa legitimação das redes sociais. A legitimidade dela está no olhar real do outro, e não através de uma tela fria.

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Não desligamos

Se cabeça vazia é a casa do Diabo, uma mente cheia é sinônimo de insônia. Escrevi a frase anterior no meu perfil do Facebook às 02h52min de domingo para segunda. Como bom libriano – não que eu entenda alguma coisa de signo, apenas li sobre isso – penso muito. E não sobre as pequenas coisas do dia a dia como o par de meia a ser utilizado. A mente trabalha em várias frentes e quando a área a ser refletida é a afetiva, os pensamentos são constantes e intensos.

Faço parte daquele grupo de pessoas que não consegue se desligar das coisas que vivem. Se algo nos incomoda, nossa mente se volta paras os problemas e os assuntos moram em nossos pensamentos durante todo o tempo – principalmente na hora de colocar a cabeça no travesseiro. E é aí o que a coisa se agrava.

Não adianta tomar meia dúzia de cerveja, ler, ver TV, se revirar de um lado para outro. A mente só vê uma coisa e o pesamento faz cada entranha do corpo sentir tal dor – até porque, dormir com a cabeça cheia de felicidade é uma barbada. Aquele problema, aquela declaração, aquela pessoa, aquele sentimento não sai da imaginação e dormir é impossível.

Na mesma madrugada, troquei mensagens com uma amiga que disse ser coração frio. Confessei a inveja. Claro que daqui a um tempo certamente não o farei. Gosto de ser passional e todos que sofrem deste mesmo ‘mal’ de pensar muito, creio que também gostam de o ser. Além disso, acho que em um tempo onde as relações são cada vez mais efêmeras, isso é uma qualidade nossa.

Porém, um pouco de gelo na mente e no coração seriam bem-vindos. Nem que seja para aliviar a dor que sentimos quando pensamos muito neste momento em que a insônia e alguns pensamentos nefastos nos cercam.

Oi, não lembro de ti

– “E aí, Alemão! Tudo bem contigo?”, diz a moça ao nos cruzarmos na rua.

Sem saber quem era, devido a uma falha na memória, digamos assim, o diálogo travado teve em síntese perguntas vagas de minha parte, como: “E a família?”; “E as festas?”; “O que tá fazendo por aqui?”. Se fossemos para os detalhes, ela notaria de cara que eu não fazia ideia de quem estava falando comigo.

Estes lapsos de memórias costuram ser comuns, afinal, parto do princípio que de fato ela me conhecia e não me confundiu com outra pessoa. Um outro problema é quando a pessoa nos trata pelo nome e a gente, que já não sabe nem que é, nem sonha em saber o nome de quem nos abordou. A saída é chamar de guria, guri, etc. Cada um se vira de um jeito diferente em cada situação, sempre com o uso de ‘nomes’ criativos.

Depois do constrangimento, ficamos buscando na memória quem foi aquela pessoa que ficou feliz em nos encontrar e até agora não sabemos quem é. E o pior, a menina era linda.

A pior ressaca

A vida noturna é uma das melhores coisas que eu conheço. Quem é frequentador assíduo dela sabe do que eu estou falando. É nela que tudo acontece. Também é nela que tiramos sempre um aprendizado a ser implantado em nosso dia a dia.

A noite também rende exageros no álcool. Quem vive na boemia já passou por maus bocados no dia posterior a um trago forte. Entretanto, pior que aquela dor de cabeça insuportável e o gosto de guarda-chuva na boca, só mesmo a ressaca moral.

Mas nem sempre ela está ligada ao abuso do álcool. Em algumas oportunidades, fazemos besteira pelo simples fato de tentar atingir, machucar ou esquecer alguém.

Foto: fodecast.com.b

Foto: fodecast.com.b

Evidente que a grande ingestão de álcool acaba sendo um facilitador para que a ressaca moral ocorra, mas ela não é álibi. Colocar a culpa na bebida acaba sendo um argumento raso e simplório por parte de quem fez a besteira.

A ressaca moral é cruel. Se vem acompanhada da dor de cabeça, fica insuportável. Passar dias pensando em uma atitude feita por impulso não é nada fácil. E aí, nem o álcool ajuda.

Só uma boa dose de arrependimento, misturada com um aprendizado a ser assimilado pode fazer com que ela seja amenizada. E o tempo, é claro.

Onde está a educação vinda de berço?

Um adolescente de 13, 14 anos no máximo ajuda uma deficiente visual – de aproximadamente 30 – a atravessar a rua em uma das avenidas mais famosas de Porto Alegre.

Na praça em frente ao colégio situado na avenida, um grupo de adolescentes, que suponho estava esperando a hora para entrar na instituição de ensino e assistir as aulas, aplaude o gesto do estudante. Outros tantos jovens dão risada e parecem estar se divertido com tal situação.

Logo após conduzir a deficiente até o outro lado da via, o jovem que realizou o gesto volta a passos lentos ao grupo de amigos. No total, aproximadamente 20 adolescentes fazem parte da cena.

20 para um. Será que essa é a proporção da boa educação do nosso país?

Será que é ridículo, perante aos amigos, ajudar alguém necessitado?

Os aplausos – alguns irônicos – e as risadas – essas sim muito mais do que irônicas – me fazem pensar que de fato a bondade e a educação estão em baixa nos dias atuais.

A culpa não está na escola. A escola dá conhecimento, educação vem de berço.

Evidente que o universo ao qual estou me referindo é restrito, mas olhando outros comportamentos – como o de ouvir música sem fones de ouvido no ônibus, por exemplo – creio que tem muita coisa errada por aí.

Jovens sem educação, certamente resultaram em adultos problemáticos – em vários sentidos.

E assim o Brasil caminha…

A noite também nos engana

Quem tem uma vida noturna frequente e uma certa idade, sabe que na boemia as coisas nem sempre são o que parecem ser.

Futilidade, falsidade e falsas impressões são só algumas coisas que rolam enquanto a maioria das pessoas está dormindo.

Claro que também existem as coisas boas. Mas cá entre nós, está cada vez mais raro achar pessoas interessantes na noite – pode ser que eu esteja ficando velho também, e quanto mais velho menos paciência para algumas coisas temos.

Com o tempo, vamos pegando a ‘malandragem’ da noite, e ao mesmo tempo vamos ficando cada vez mais desconfiados de algumas situações que ocorrem com a gente.

Exemplifico.

Na noite estamos sempre com o desconfiômetro ligado

Você (homem) está parado na copa da festa e uma mulher linda simplesmente puxa papo com você:

“Não entendo por que os homens têm que encher a cara de cerveja para chegar em uma mulher…”

O homem debate o tema e troca meia dúzia de frases com a dama.

De repente, simplesmente se despede e toma outro rumo dentro da casa noturna.

Depois de mais algumas doses de cerveja, passa outra vez pela mulher – que já não está mais sozinha e troca beijos demorados com outro homem e pensa:

“A mulher é linda e meu deu uma indireta mais direta que um soco no rosto. Perdi a chance.”

No dia seguinte, o homem que foi abordado pela mulher acorda e além de sentir a boca seca pela quantidade exorbitante de álcool que ingeriu na noite anterior, se culpa por não ter trocado mais algumas palavras com a moça.

A noite também é cruel, às vezes. Ela faz com que a gente – por experiências e desilusões passadas – tome certas atitude visando não cometer os mesmos erros do passado.

E assim vamos indo.

Afinal, como diz aquela música, ‘a noite nunca tem fim…

Sempre sobra para a Copa

Andando por aí, seja durante o dia para ir e voltar do trabalho, no boteco, em shows e até mesmo em casas noturnas, umas das frases que eu mais ando ouvindo é: “E ainda querem fazer Copa do Mundo.” O bordão virou desculpa para qualquer coisa.

O cara está na fila gigantesca do banco, e solta: “E ainda querem fazer Copa do Mundo.”

No ônibus lotado a velha senhora, irritada com a superlotação, também diz: “E ainda querem fazer Copa do Mundo.”

No bar, se a cerveja vem quente, a reclamação começa com: “E ainda querem fazer Copa do Mundo.”

Se o show daquele artista nacional atrasa: “E ainda querem fazer Copa do Mundo.”

Enfim, tudo que dá errado sobra para Copa.

Concordo que o país deveria arrumar algumas coisas antes de sediar a competição mais importante do planeta, mas nem por isso a Copa deve ser citada sempre que algo nos desagrada.

Tem gente que não pega ninguém na noite e só falta botar a culpa nela também…